Organismo, vida e finalismo no “Tratado de Fisiopatología Clínica” de Joseph Grasset

“Los antiguos habían mostrado precisamente el papel del organismo viviente como causa generatriz de las enfermedades, siendo los elementos exteriores sus causas provocadoras.” Com esta afirmação, o médico francês Joseph Grasset abria o segundo volume de seu famoso “Tratado de Fisiopatologia Clínica”, publicado em três volumes no início do século XX.

(Fonte: todocoleccion ©1997-2020 Zoconet, S.L.)
(Fonte: todocoleccion ©1997-2020 Zoconet, S.L.)

Grasset (1849-1918), foi professor de clínica médica da Universidade de Montpellier, encarregado do ensino de patologia e terapêutica gerais. Conhecido como um dos grandes personagens da “escola” que passou a levar o nome daquela universidade, em sua obra Grasset faria a defesa da Patologia Geral como uma verdadeira síntese da medicina, a qual deveria ser dirigida pela fisiologia. Tal campo, segundo o autor, estudaria as funções da vida em estado normal e patológico.

O Tratado é fruto de um curso de Patologia Geral que Grasset ministrou na Faculdade de Medicina de Montpellier. O autor dividiu os três volumes da seguinte forma: “El primero comprende las funciones de recepción, absorción, circulación, elabaración y eliminación de la materia: Trofobiología. El presente (el segundo) comprende las funciones de defensa contra la enfermedad: Antixenismo. El tercero comprende las funciones de recepción, elaboración y emisión de la energía: Neurobiología; y las funciones de reproducción, con la embriología general y la herencia.” (Grasset, 1914)

A trilogia foi traduzida (Ed. Salvat, Barcelona) sob a direção de Augusto Pi Suñer (1879-1965), fisiologista da Faculdade de Medicina da Universidade de Barcelona à época. Investigador no tema dos reflexos, Pi Suñer foi um dos fundadores da Sociedad Catalana de Biología (1912) e diretor dos Treballs de la Societat de Biologia de l’Institut d’Estudis Catalans. Em diálogo com Grasset, observa-se que Pi Suñer havia publicado trabalhos de investigação fisiológica sobre as reações defensivas do funcionalismo das células, com anterioridade à tradução do tratado daquele médico francês, talvez como condição de possibilidade para a referida tradução.

(Fonte: Biblioteca Digital Hispánica)
(Fonte: Biblioteca Digital Hispánica)

Sugerimos este segundo volume – resumidamente apresentado aqui – como fonte potencial para os historiadores da medicina, na medida em que Grasset apresenta discussões relevantes sobre conceitos de etiologia e patogenia alicerçados pela fisiologia e pelo vitalismo filosófico característico da escola de Montpellier do início do século XX. A primeira parte deste segundo volume do Tratado, intitulada “El enemigo y la defensa a su entrada. La energía, la materia y la vida nocivas. Etiología general” oferece subsídios para uma discussão a respeito dos fundamentos e bases epistemológicas da teoria biológica fortemente marcada pelo embate entre posições mecanicistas e organismológicas naquele momento. No terceiro volume, Grasset divulgará a sua concepção do sistema nervoso como “meio energético del organismo”, assunto que tratarei em outra oportunidade.

O volume segundo da obra “Tratado de Fisiopatologia Clínica” está digitalizado e encontra-se disponível para acesso online e download a partir da Biblioteca Digital Hispánica da Biblioteca Nacional de España.

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